Aceitei o desafio de estar hoje aqui convosco, pela razão simples de gostar da irreverência com que a Bernardete olha e diz o mundo. Essa irreverência que é possibilidade de sermos livres. Na poesia encontramos a possibilidade de liberdade em elevado grau. Porque a poesia sendo expressão de um trabalho poético, não é mercadoria, é doação. Doação que se corporiza através de um sistema de signos que comunica, a Linguagem. Quando fazemos uso da linguagem colocamos nela intenções tão diversas como, por exemplo: emocionar, persuadir, transmitir a nossa visão da realidade, as experiências... Ou, simplesmente, estabelecer contacto. Comunicar. A obra poética, Transpiração, da Bernardete Costa, configura-se como expressão dessa necessidade de comunicar, de abrir a sua intelecção do mundo ao outro. De partilhar a sua experimentação da realidade, apontando janelas de liberdade àqueles a quem, primeiramente, ela se destina, os jovens. Na sua condição de professora, mãe, mulher, lega aos que se encontram no início da construção do seu eu próprio, a chave de liberdade que a poesia potencia. E fá-lo com mestria, através de uma linguagem simplificada e plena de sentidos figurados, não se furtando à beleza da semântica para colocar ritmo e sonoridade nos seus versos. Pela poesia se estabelece o vínculo radical entre o poeta e o seu leitor. Entre a palavra e a coisa. Conexão originária entre notação e coisa. O poeta é, em última análise, aquele que se sente impelido a dizer o que o mundo lhe diz. E é isso que a Bernardete faz na sua Transpiração poética. Fala das coisas que nos situam no espaço-tempo da existência: o livro, o enamoramento, a descoberta da poesia, a paixão do mar, dúvidas, reflexos, espelho, beijo, casa, rio, vida, mãe, pai, namoro, saudade, amizade, guerra, indiferença, tempo, pássaro... A Bernardete dedica a sua dádiva aos filhos e aos meninos de ontem e jovens de hoje. Porque somos seres históricos, sociais, é no encontro com o outro que nos completamos. A autora abre a sua obra poética aos jovens, na esperança de lhes provocar “entranhamento”. O “entranhamento da irreverência”. Irreverência que a caracteriza. Essa “irreverência” que é desejável na juventude. O mundo avança ao compasso do sonho e da utopia. Sendo a utopia o que ainda não foi realizado e a juventude o tempo de todas as esperanças, de todas as utopias. O título que ela dá à obra, Transpiração, remete para a necessidade de acção. Do esforço que deverá ser colocado para alcançar a realização de sonhos e utopias. A Bernardete Costa, como todos os poetas, tem a emoção da vida instalada no corpo, e é pelas mãos, pela escrita, que liberta o que lhe vai na alma. Bem haja! Conceição Oliveira Vila Nova de Cerveira, 19 de Novembro de 2011